A ADORAÇÃO AO SANTÍSSIMO SACRAMENTO E A CELEBRAÇÃO EUCARÍSTICA: APRENDENDO DA HISTÓRIA

Rosilda copyCresceu muito nesses últimos anos, a volta das manifestações de adoração ao Santíssimo Sacramento durante a celebração da missa, ou imediatamente após.

Muitos padres, na hora da consagração, levantam devagar e solenemente, bem alto, a hóstia consagrada e, depois, o cálice, para adoração dos fiéis. Há padres que, logo após a consagração, interrompem a Oração Eucarística, saindo com o Santíssimo Sacramento em procissão pela nave da Igreja, chamam essa procissão de “passeio” – para adoração dos fiéis com manifestações de aplausos, toques na hóstia por parte dos fiéis para receber a cura, etc.

Muitos cristãos, assim que recebem a comunhão, têm o hábito de se ajoelhar na capela do Santíssimo Sacramento para adorar Jesus presente ali no sacrário, como se não tivesse acabado de “receber Jesus” no templo do próprio corpo!

Há padres e leigos que incentivam a adoração do Santíssimo imediatamente após a missa, dando assim a impressão de que a comunhão não valeu, ou valeu pouco. Pois, dada a importância que se dá a adoração e à benção do Santíssimo logo após a missa, a comunhão no “Corpo e Sangue de Cristo” acaba caindo no esquecimento, em segundo plano. É importante lembrarmos que: “A maior benção, foi a participação no memorial no sacrifício de Cristo” (comunhão), na missa recém celebrada. Outros chegam a substituir a benção final da missa pela benção do Santíssimo Sacramento.

Essas práticas tão resgatadas em nossos dias ilustram o sentido da missa mais como ato de adoração ao Santíssimo Sacramento do que como celebração do mistério pascal na forma de uma ceia.

adoraçãoO costume de adorar o Santíssimo Sacramento durante a missa foi desenvolvido na Idade Média, quando a Igreja havia perdido de vista o verdadeiro sentido da missa como celebração memorial da Páscoa de Cristo e nossa (“fazei isto em memória de mim”!), que tem seu ponto alto no momento da ceia (comunhão). A missa, em vez de ser, em primeiro lugar, um momento de adoração ao Pai, através do memorial do sacrifício de Cristo que se entrega na força do Espírito Santo, transforma-se simplesmente numa ocasião privilegiada de adoração à hóstia consagrada, ou ao Cristo presente no vinho e no pão; mas sobretudo no pão (na hóstia).

“São estes, costumes que tiveram uma origem bem, como um motivo por que se originaram, na história da Igreja”, Diz Fr. José Ariovaldo na Revista de Liturgia - 2001. No primeiro milênio (Século IX), a eucaristia era vivida como celebração memorial da Páscoa de Cristo, em clima de ação de graças, da qual participava toda a assembléia comungando do Corpo e do Sangue de Cristo. Não havia adoração ao Santíssimo Sacramento. A partir dos séculos VIII-IX, o padre começa a rezar a missa sozinho, em voz baixa, de costas para o povo e em latim. O povo apenas “assiste”, de longe. Já não participa como antes. Os cristãos perdem o estímulo de participar da comunhão. Enquanto o padre celebrava a missa o povo entretinha-se com rezas do terço, novenas, devoções, e a comunhão foi substituída pela adoração da hóstia: Ver a hóstia, de longe, adorando-a, tornou-se uma forma de “comungar”.

Nos últimos anos, o Papa João Paulo II fala de uma nova evangelização: “re-evangelizar nossa cultura religiosa eucarística, valorizando, à luz do Concílio Vaticano II, a compreensão bíblica e dos Santos padres no que se refere à celebração eucarística.

missaInteressante colocação fez o Frei Ariovaldo a este respeito: “Não se trata de menosprezar e muito menos querer eliminar as devoções ao Santíssimo Sacramento. Trata-se, de, teologicamente, colocar as coisas no seu justo lugar. Não misturar as coisas. Missa é missa. Adoração ao Santíssimo é outra coisa, com seu sentido e valor. Também não se trata de dizer que não adoramos Cristo na hora da missa. Deve-se evitar exageros que colocam a prática da adoração ao Santíssimo acima da Oração Eucarística e da própria comunhão”.

Neste sentido, a CNBB (Conferencia Nacional dos Bispos do Brasil), nos dá com muita sabedoria a seguinte orientação: “Na celebração da missa, não se deve salientar de modo inadequado as palavras da Instituição (= consagração), nem se interrompa a Oração Eucarística para momentos de louvor a Cristo presente na eucaristia com aplausos, vivas, procissões, hinos de louvor eucarísticos e outras manifestações que exaltem de tal maneira o sentido da presença real que acabam esvaziando as várias dimensões da celebração eucarística”.

Enfim, o grande desafio mesmo está em desenvolver na alma dos pastores e dos fiéis tudo o que o Concílio Vaticano II resgatou em termo de teologia e celebração da eucaristia. Afinal a missa, distante do pensamento de Jesus e da prática dos primeiros cristãos, transforma-se numa espécie de “fabrica de hóstias consagradas” para serem adoradas. Longe do pensamento de Jesus que na última ceia não disse: “tomai e adorai”; ele disse: “tomai e comei”... “tomai e bebei”!

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Postado por Charles Cavalcanti

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